Depoimento de alguém taxado na Geração Y

O post de hoje é bem cheio de lembranças minhas e as experiências que tive com a tecnologia desde que eu era criança. Os sociólogos me enquadraram na Geração Y: nasci entre os anos de 1978 e 1990 (1985, pra ser mais exata), numa época cheia de quebras de tabus e de grandes mudanças sociais, em que a tecnologia ficou mais acessível, e nos aproveitamos bem disso.

Lembro-me de que, quando era criança, a nossa TV era preto e branca e caixa de madeira. Em Bonfim, pelo menos, eram mais raras as TV’s em cores, mesmo porque a imagem lá não era muito boa: as antenas UHF demoraram a chegar por lá, e ainda não funcionam muito bem, mas foram substituídas por antenas parabólicas. Meu pai tinha um rádio a pilha, que eu achava o máximo, e minha avó uma vitrola (ou toca-discos) e diversos discos do Barnabé (um piadista caipira que eu adorava). Essas eram as primeiras tecnologias que tive contato, e mesmo antes dos 5 anos já dominava relativamente bem.

Não demorou muito para meus pais comprarem uma TV a cores com controle remoto. Ganhei um walkman da Sony, um rádio com toca-fitas e uma máquina fotográfica Yashica. Nessa época minha diversão era gravar e desgravar fitas cassete, montar playlists (essa palavra não existia na época, acho) com minhas músicas favoritas, gravar gols do Galo e montar programinhas de rádio. Eu dominava melhor que meus pais o controle remoto e resolvia problemas de sintonia de canais e imagem muito bem, além de fotografar razoavelmente para uma criança de 8 anos de idade. Logo em seguida veio o videocassete e as primeiras locadoras em Bonfim (quem aí se lembra que tinha que devolver a fita rebobinada?) e a gravar programas de TV: a maior diversão era programar o vídeo para gravar filmes que passavam de madrugada. Mais ou menos por aí eu também fazia meu curso de datilografia  – sim, em máquinas de escrever, duras, mas charmosísimas.

Eu ficava muito tempo sozinha em casa: minha mãe trabalhava o dia todo, meu pai idem. Por isso, ela me enchia de livros, revistinhas da Turma da Mônica (ganhava assinaturas todos os anos, desde que comecei a ler) e outras coisas educativas para que eu não ficasse o dia todo na frente da TV. Mas era inevitável: programas de TV sempre foram minha companhia mais frequente, muitas vezes minha babá. E creio que com boa parte da Geração Y tenha sido assim também.

Já adolescente, ganhei um disk man, microssistem (com fita cassete, que eu ainda adorava, mas também CD player) e meu computador, que saiu na troca pela festa de 15 anos. Era um k6-2 modesto, além de uma impressora HP jato de tinta, que consumia horrores. Nesta minha fase “geek caipira” aprendi praticamente tudo que sei hoje de computador sozinha, ou com manuais de informática do meu tio. Praticamente um ano depois é que abriu o primeiro curso de informática em Bonfas City, e que minha mãe fez questão de me matricular. Modéstia às favas, eu já sabia o suficiente no curso pra ensinar os colegas mais atrasados. Efetivamente, a única coisa que aprendi foi a usar mais ou menos o Excel.

Acessar internet era complicado: os provedores gratuitos, como iG e Pop não funcionavam lá (tinha um motivo, não me lembro qual), e a única coisa que salvava era o discador da Intelig, no qual eu pagava R$ 0,23 por minuto de internet utilizada, na velocidade da discada. Não era fácil, meu povo. Meu quarto vivia abarrotado de disquetes, CD’s e outras coisas cretinas que salvava toda vez que vinha em BH visitar os primos, e acessar a internet era mais fácil. Numa dessas criei meu primeiro e-mail no iG, meu ICQ…

Madrugadas desperdiçadas no bate-papo do UOL, nos blogs das amigas (que eram somente diários virtuais, mesmo). Nessa época, o Google ainda era meio desconhecido por aqui (e exibia seus resultados em ordem alfabética!), e o Cadê? reinava soberano… Eu pensava o Submarino como uma coisa que eu jamais usaria. Meu celular era um Siemens A-70 básico, daqueles que aguenta qualquer pancada e com pouquíssimos recursos. Nessa época parei de usar relógio de pulso e despertador.

Em seguida veio o orkut, e conseguir um convite era tarefa complicada. A mesma coisa com o gmail (amor à primeira vista). Mas aí eu já era grandinha, e já não via tudo mais com olhos deslumbrados de uma criança, mas como coisas essenciais do meu dia-a-dia. Aquele meu k6-2 foi deixado de lado (nem sei se funciona mais), e adotei um notebook, hoje menos usado do que meu smartphone com Android. Alguns gadgets comprados há pouco mais de um ano estão obsoletos e com menos anos de uso do que muitos dos que tive no passado. Larguei os disquetes (que sempre perdia na faculdade) e os CD’s regraváveis, tenho pendrives que carregam muito mais coisas, ou simplesmente salvo na nuvem. O disk man e o walkman deram lugar a pequenos tocadores de mp3, que já foram substituídos pelo smartphone.

Me chamam de Y, mas… 

Sempre fui multitarefa: estudava, ouvia rádio e  assistia TV ao mesmo tempo, e ninguém acreditava que eu poderia aprender alguma coisa. E hoje isso é muito comum. Trabalhamos (sim, na 1ª pessoa do plural, porque acho que a maior parte de vocês trabalha assim também) com dois navegadores ou até mais, cada um com diversas abas e com um programa diferente. Trabalhamos ouvindo música, vendo vídeos e conversando com os amigos nos talks da vida. E conseguimos render bem, ainda assim.

Fomos acostumados com uma avalanche de informações todos os dias, e talvez por isso nossa memória guarde menos coisas do que as dos nossos pais. Mas temos tudo digitalizado a um clique de distância ou a uma “googlada”. Liberamos nossas mentes para a criatividade, para escrevermos blogs (!), para pensarmos em sistemas complexos de compartilhamento de informações. Não somos mais inteligentes que as gerações anteriores, nem menos. Somos mais conectados.

E somos mais angustiados, por não dar conta de toda a informação que temos que processar. Somos mais ansiosos, nosso tempo é escasso e dormimos menos. Ainda jovens já apresentamos doenças relacionadas ao estresse. Ficamos deprimidos. Temos que render mais em menos tempo, lidar com pressões dos nossos diversos grupos sociais. É um preço a se pagar por estar sempre conectado. Se ele é alto demais, ou não, cabe a cada um decidir.

A geração Z, que vem após a nossa, nasceu mais conectado do que nós. Eles já encontraram internet em alta velocidade, tablets, enfim, uma tecnologia mais avançada. E sim, eles lidam com estes novos badulaques muito bem. Não saberemos se eles terão os mesmos problemas que nós (o ideal é que eles já vissem o que deu errado), mas com certeza eles encontrarão outros novos.

No fim das contas, não sei aonde chegaremos. Não consegui sequer achar um final decente para este post. Divaguei sobre a minha evolução junto com a tecnologia, tentando entender porque me taxaram numa geração. Entendo que elas são necessárias para o entendimento de uma geração para as futuras, mas não consigo me definir por uma letra. Sou mais complexa que um alfabeto inteiro.

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2 comentários
  1. Vou compartilhar um vídeo sobre as gerações que revolucionaram épocas… http://vimeo.com/16641689 Esse vídeo é demais, e acho até que deveria ser visto por muitos pais com filhos da geração Y, minha mãe, por exemplo, quando me vê focado sem desviar os olhos por mais de 1 hora da frente do meu notebook se angustia tanto ao ponto de vir me cutucar pra mim sair da frente “disso” como ela diz! Já minha filhota me cobra pelo menos umas 4x durante a semana a hora de eu comprar um notebook novo pra eu dar o meu pra ela… E ela tem somente 5 anos de idade!!!

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